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sábado, 15 de julho de 2017

Quando o Sol parece se esconder…

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Sem dúvida, o testemunho mais vivo da passagem do Filho de Deus por este mundo, “na plenitude dos tempos” (Gal 4, 4), são os Santos Evangelhos. Eles, entretanto, se calam a respeito de sua infância e juventude no seio da Sagrada Família, em Nazaré. São Lucas é o único Evangelista a romper este silêncio ao narrar o episódio da viagem a Jerusalém por ocasião da Páscoa, quando Jesus contava 12 anos.

A perda e o encontro do Menino Jesus no Templo

No caminho de regresso, “São José e a Santíssima Virgem, não vendo o Menino a seu lado, creram, cada um por sua parte, que Ele ia em companhia do outro”,1 julgando assim que estava no grupo. Não é de se estranhar, pois era costume entre os israelitas que as mulheres viajassem separadas dos homens e uma criança desta idade poderia estar tanto com o pai quanto com a mãe. Ademais, seria preciso ter visto a partida de uma caravana oriental daqueles tempos para compreender o bulício e a agitação, entre animais, anciãos, adultos e crianças, cargas e incidentes. Por tudo isso, no fim do dia, quando pararam “para passar a noite e os membros de cada família reuniram-se num acampamento comum, Maria e José puderam comprovar com certeza o desaparecimento do Menino Jesus”.

Encontro do Menino Jesus no Templo.jpg

Por que o Divino Menino resolveu abandonar seus pais sem aviso,
deixando-os na ansiedade de encontrá-Lo?

Encontro do Menino Jesus no Templo – Santuário Sagrado
Coração de Jesus, São Paulo

Preocupados, puseram-se a buscá-Lo “entre os parentes e conhecidos. Mas não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à procura d’Ele” (Lc 2, 44-45). Afinal, chegando ao Templo se depararam com o Menino sentado no meio dos mestres e doutores da Lei, escutando e fazendo perguntas. Todos os que O ouviam estavam “maravilhados da sabedoria de suas respostas” (Lc 2, 47). Ao vê-Lo, seus pais “ficaram admirados. E sua Mãe disse-Lhe: ‘Meu filho, que nos fizeste?! Eis que teu pai e Eu andávamos à tua procura, cheios de aflição’. Respondeu-lhes Ele: ‘Por que Me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-Me das coisas de meu Pai?'” (Lc 2, 48-49).

Depois de percorrermos esta passagem do Evangelho, surge inevitavelmente uma pergunta: por que o Divino Menino resolveu abandonar seus pais sem aviso, deixando-os na ansiedade de reencontrá-Lo, pensando talvez que O tivessem perdido para sempre? Considerando que tudo na Sagrada Escritura tem um profundo significado, cabe aqui outra questão: que ensinamento nos traz este singular episódio?

Assim como o Sol, age em nós a graça divina

Para melhor compreendermos como ele se aplica à nossa vida espiritual, analisemos o estilo de um célebre pintor francês do século XVII: Claude Lorrain. Suas obras são de um colorido rico, matizado e vibrante pela singular habilidade que possuía para representar a luz do Sol. Graças a ela, cenas campestres e panoramas de grande singeleza adquirem aspectos paradisíacos.
É curioso notar “que sua especialidade é pintar muros velhos, leprosos, escalavrados, que perderam pedaços de reboco e os tijolos se tornaram aparentes, sobre os quais, porém, bate um Sol magnífico”.3 E a luz do Astro Rei confere à parede derruída algo de seu próprio valor.

Assim como o Sol, age em nós a graça divina. Mesmo estando abatida pelas dificuldades e borrascas, nossa alma se reveste de feéricas cores quando uma graça sensível a faz brilhar. O que antes se apresentava árido ou difícil torna-se belo e atraente. Contudo, quando esta graça se retira sentimo-nos como um dos muros das pinturas de Claude Lorrain sem a luz do Sol: feios e gastos pelo passar do tempo. A graça santificante continua a sustentar-nos, mas não somos capazes de vê-la.

Paisagem com Apolo e a Sibila de Cumas, por Claude Lorrain.jpg

Quando esta graça se retira sentimo-nos como um dos muros das
pinturas de Claude Lorrain sem a luz do Sol

Paisagem com Apolo e a Sibila de Cumas, por Claude Lorrain – Museu
de l’Hermitage, São Petersburgo

A perda desta visão sobrenatural “pode ocorrer por culpa nossa, porque cedemos aos nossos egoísmos, caprichos e manias. Ou por decisão de Deus que, nos seus insondáveis desígnios, deseja nos provar: depois de nos cumular com seus dons, de nos favorecer com maravilhosas situações à la pintura de Claude Lorrain, permite que tudo se apague de repente”.

Quando a luz da graça parece se apagar…

Encontramos nas Sagradas Escrituras várias passagens que mostram como Deus manda as provações para os homens se emendarem, pois Ele não Se compraz “com a morte do pecador, mas antes com a sua conversão, de modo que tenha a vida” (Ez 33, 11).

No Antigo Testamento, por exemplo, lemos no Livro dos Provérbios: “Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, nem te espantes de que Ele te repreenda, porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e pune o filho a quem muito estima” (3, 11-12). E no Novo Testamento, contemplamos na Carta aos Hebreus: “Estais sendo provados para a vossa correção: é Deus que vos trata como filhos” (12, 7).

Por isso, como o que se passou com Nossa Senhora e São José na viagem a Jerusalém – neste caso, inteiramente sem culpa -, “há momentos de nossa existência nos quais temos a sensação de ter ‘perdido o Menino Jesus’, isto é, com ou sem culpa nossa, a consolação espiritual desaparece e nos sentimos desamparados”.

Sinais para discernirmos os períodos de aridez

Por conseguinte, bem podemos comparar as situações de aridez aos dias que, antes se apresentando claros e radiantes, passam a nublados e tenebrosos, pois não mais vemos o Sol, apesar de ele continuar brilhando ­detrás das nuvens. Nessas circunstâncias a alma se julga verdadeiramente abandonada. Tendo tudo ficado escuro, ela se imagina coberta de manchas, digna dos piores castigos, e pode até crer ter perdido Jesus para sempre!

Afirma São Francisco de Sales: “Acontece algumas vezes que não encontramos consolação alguma nos exercícios do amor divino, de forma que, como cantores surdos não ouvimos a própria voz, nem podemos gozar da suavidade do nosso canto; mas, além disso, estamos cheios de mil temores, preocupados com mil ninharias com que o inimigo cerca o nosso coração, sugerindo-nos que talvez não sejamos agradáveis ao nosso Mestre e que nosso amor é inútil ou ainda que é falso e vão, por não nos produzir consolação”. E o demônio pode aproveitar-se destas situações para desanimar a pessoa, que fica com a impressão falsa de não mais ser amada por Deus.

por do sol.jpg

O demônio pode aproveitar-se destas situações para desanimar a pessoa,
que fica com a impressão falsa de não mais ser amada por Deus

Pôr do Sol desde a Casa Lumen Coeli, dos Arautos
do Evangelho, Mairiporã (SP)

Ora, é mister discernir a prova para não sucumbir na tentação e, ao contrário, fortalecer-se na fé. Um comentarista de São João da Cruz explica os três sinais dados por este mestre de vida espiritual para discernirmos os períodos de aridez: não se tem mais gosto nem consolação nas coisas de Deus ou nas coisas criadas; daí decorre uma inquietação, pois a pessoa acredita não estar servindo a Deus; a oração se torna penosa e insípida: em lugar de pensar em Deus, a pessoa O deseja, e Ele, todavia, parece esconder-Se. “Qualquer reflexão não levará a nada. Mesmo fazendo todo esforço, sente-se apenas aridez”.

Noites escuras que purificam a alma

Não deve surpreender-nos, portanto, a existência de períodos de aridez em nosso caminho rumo à perfeição, como escreve Kempis: “Não encontrei, jamais, alma tão religiosa e tão devota que não experimentasse algumas vezes ausentar-se-lhe a graça e diminuir-se-lhe o fervor. Nenhum Santo subiu tão alto nem foi tão ilustrado, que antes, ou depois, não sofresse tentações. Não é digno de contemplar a Deus quem, por amor de Deus, não sofreu alguma tribulação”.8

Inclusive grandes Bem-aventurados passaram pelo que São João da Cruz chama “noite escura”. Ela é “um influxo de Deus na alma, que a purifica de suas ignorâncias e imperfeições habituais, tanto naturais como espirituais. Chamam-na os contemplativos, contemplação infusa ou teologia mística. Nela vai Deus em segredo ensinando a alma e instruindo-a na perfeição do amor, sem que a mesma alma nada faça, nem entenda como é esta contemplação infusa”.9

Tanquerey dá quatro razões pelas quais Deus nos prova através das securas e aridezes: a primeira delas é para “nos desprender de tudo quanto é criado, até mesmo da doçura que se encontra na piedade, para aprendermos a amar a Deus só, e por Si mesmo”. A segunda tem o fim providencial de nos tornar humildes, ao nos mostrar “que as consolações não nos são devidas, antes são favores essencialmente gratuitos”. Com elas nos purificamos das faltas passadas e das afeições presentes de inclinação egoísta e, por fim, elas nos robustecem a virtude, pois, “para continuar a orar e praticar o bem, é preciso exercitar com energia e constância a vontade”.

Os períodos de provação fazem com que o homem se desapegue do que não é Deus, purificam a alma pelo sofrimento, movem-no a desejar o Céu e a perfeição, “contanto que a alma tire proveito dessas provas, para se voltar para Deus”.

Como vencer a prova?

A aridez espiritual, pois, costuma indicar, mais do que falta de virtude, uma predileção de Deus para levar a alma a unir-se mais com Ele, como Maria Santíssima e São José. No entanto, não podemos nos esquecer de que “Deus quer que nos submetamos às provas, mas quer igualmente que busquemos a saída”.

Imagem do Imaculado Coração de Maria pertencente aos Arautos do Evangelho.jpg

Quando o Sol parece se esconder “por
detrás das nuvens, Nossa Senhora
acompanha nossa alma,
com que amor...”

Quando o Menino Jesus desapareceu, o Santo Casal logo começou a procurá-Lo, e O encontrou no Templo: “Este fato é uma indicação e deve nos orientar. Não foi pelas estradas, não foi nas praças públicas, não foi entre os parentes e os mais próximos que Jesus Se encontrava, e sim no Templo. Sob este nome transparente é preciso ler: recolhimento, espírito de fé, pureza de intenção, toda a disposição onde Deus Se encontra”.

Que fazer, então, quando “percebemos que estamos sem graças sensíveis, sem aquilo que nos dava ânimo e sustentação para praticar a virtude”? É necessário “ir atrás do Menino Jesus, isto é, pôr-se à procura da graça sensível, quando ela se retirar. Quando estivermos aflitos, na aridez, devemos procurar Jesus no Santíssimo Sacramento”.

O Divino Redentor, de dentro do tabernáculo, “clama a todos aqueles que sofrem, que estão necessitados, desgraçados: ‘Vinde a Mim e Eu vos aliviarei’. É sempre o Bom Samaritano, o médico divino de nossas almas, que há de curá-las de todas as chagas do pecado e que há de purificar e santificar nossos corpos pelo seu Corpo sagrado. É sempre o Bom Pastor a amar suas ovelhas, a nutri-las com sua Carne e com seu Sangue”.

Tenhamos a certeza de que Maria Santíssima – quem na ocasião de sua prova guardou “todas estas coisas no seu coração” (Lc 2, 51) – nos ajudará a encontrar Jesus. E saibamos que quando o Sol parece se esconder, “por detrás das nuvens Nossa Senhora acompanha nossa alma, com que amor. Ela está dentro de nós pela sua ação e pela sua graça. Ela está dentro de nós e nos ajuda”. Ainda que tenhamos culpa, rezemos a Ela com toda confiança: “Seja como for, caminharei no escuro e nas trevas. Poderei sentir-me abandonado por todos e até por Deus. Mas Deus não me abandonará e não morrerá em minha alma a convicção de que a Mãe d’Ele reza por mim no Céu, que Ela pode tudo e consegue todos os perdões!”. (Revista Arautos do Evangelho, Fevereiro/2016, n. 170, pp. 22 a 25)

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Oração de São Francisco de Assis Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor; Onde houver ofensa, que eu leve o perdão; Onde houver discórdia, que eu leve a união; Onde houver dúvida, que eu leve a fé; Onde houver erro, que eu leve a verdade; Onde houver desespero, que eu leve a esperança; Onde houver tristeza, que eu leve a alegria; Onde houver trevas, que eu leve a luz. Consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado. Pois, é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado, e é morrendo que se vive para a vida eterna. Amém